segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Os novos projetos do criador da bossa nova

Aos 78 anos, colega de Dizzy Gillespie e Henry Mancini, o maestro Waltel Branco não se contenta em ser um dos músicos mais respeitados do Brasil

Foto: Letícia Moreira
Waltel Branco quer abrir uma escola de música para as crianças e manda um recado para as universidades: é candidato a professor

Parnanguara de nascimento, o maestro Waltel Branco começou ainda menino a estudar música em Curitiba, somando hoje mais de 70 anos de dedicação a esta arte. Da capital paranaense, levou seu talento para grandes cidades das Américas, onde realizou importantes trabalhos com renomados artistas.

Em Cuba tocou com Perez Prado e Mongo Santamaria. Em Nova York foi músico de Dizzy Gillespie, colega de Henry Mancini e concunhado de Quincy Jones, entre outros consagrados jazzistas. No Rio de Janeiro trabalhou na maior emissora de TV do Brasil por 20 anos, compondo e tocando as trilhas e vinhetas de sua programação. É conhecido de todos os grandes músicos nacionais e é hoje creditado pelos pesquisadores como o verdadeiro criador da bossa nova.

De volta a Curitiba, onde mora nos últimos 15 anos, Waltel saiu do ostracismo e viu seu trabalho de bastidores ser descoberto e reconhecido mundo afora. Com 78 anos, o maestro não pára. Com energia de um menino, afirma que ainda tem projetos para se dedicar até quando chegar aos 120 anos.

Folha de Londrina Seu pai também era maestro. Foi ele quem te iniciou nesta carreira?

Waltel Branco Sim, comecei foi por tradição da família. Ele tocava violão. Daí comecei a tocar violão também. Ele me ensinou. Dali pra frente foi fácil. Depois comecei a tocar bateria pois eu gostava bastante de ritmo. De lá fui pro seminário, onde fiquei dos 13 aos 18 anos estudando violão clássico, órgão, piano, tudo quanto era instrumento.

Folha Do Brasil, o senhor foi morar em Cuba como músico. Como isso aconteceu?

Waltel Quando eu saí do seminário conheci a Lia Ferrel, uma cantora cubana. Comecei a tocar com ela e fui pra Cuba. Lá eu conheci Tito Rodriguez, Perez Prado, Mongo Santamaria. Então fiquei morando em Cuba. Estaria lá até hoje, porque gostava de lá. Mas aí aconteceu do Fidel Castro tomar o poder. E aquela turma com quem eu tocava teve que sair, e eu os acompanhei. Fomos morar em Nova York. Assim como no Brasil, lá pensavam que éramos comunistas e nos associavam com guerra e bagunça.

Folha Mas qual era o problema que o senhor tinha com Fidel Castro?

Waltel O problema era com a minha turma de músicos. Eu e o Fidel somos amigos. Trabalhei com ele, inclusive. Ele é pai de santo de Candomblé. Eu tocava com ele uns instrumentos de percussão. Ele toca paca! Um ritmista e tanto. Hoje eu recebi o e-mail dele sobre a renúncia. Mas eu já sabia que isso ia acontecer.

Folha Como foi o recomeço em Nova York?

Waltel Essa minha turma conhecia o Dizzy Gillespie, que nos chamou pra trabalhar com ele. Foi aí que eu comecei a tocar jazz. Eu estou sempre mudando. Eu também toquei com o Chico Hamilton num grupo de rock blues, bem americano, que leva mais em consideração a música. O rock brasileiro dá mais valor para as letras. Lá também toquei com Marvin Gaye, Net King Cole e o Quincy Jones, que eu chamo de meu concunhado, pois as nossas mulheres são irmãs.

Folha E a parceria com o Henry Mancini, como surgiu?

Waltel Morando lá, fiz um curso de música para cinema, com Anthony Wilson. Lá eu conheci o Henry Mancini, que era meu colega. Ele sabia que eu gostava de dar aula pra crianças, pois as aulas rendem muito mais, a gente aprende com as crianças, que percebem coisas que os adultos não percebem. Ele estava compondo a trilha do filme da Pantera Cor-de-Rosa, que era um cartum famoso, daí ele me contratou pra participar da equipe de arranjadores na firma dele, junto do Barry White e Benny Golson. Nos discos não aparecem os nossos nomes, mas a gente recebe direitos pois estamos nos créditos do filme.

Folha Foi nos Estados Unidos que o senhor conheceu o Roberto Marinho?

Waltel Foi lá mesmo, em 1963. Foi ele quem me trouxe para o Rio, me convidou para trabalhar na televisão que ele ia fundar. Mas chegando lá, eu entrei para o jornal O Globo, onde fiquei escrevendo enquanto a emissora de tv não começava.

Folha Quer dizer que o senhor também foi jornalista?

Waltel Fui sim. Tenho até carteirinha. Sou crítico de música. Até hoje eu ainda escrevo para o jornal, quando o Edvaldo Pacote me pede. Ele é vice-presidente do grupo, e me pede músicas também. Umas trilhas e vinhetas.

Folha Muita gente não sabia que o senhor ainda trabalha na Globo, afinal o senhor saiu de lá há anos e ainda processou a emissora...

Waltel Eu briguei e ganhei. Eles não queriam pagar meus direitos autorais, dizendo que eu não tinha direito algum. Abri uma ação contra eles. A coisa foi longe mas eu ganhei. Mas até hoje quando eles precisam, eu ainda faço trabalhos sim. Afinal os meus amigos ficaram todos lá (risos).

Folha O senhor é hoje apontado como o verdadeiro criador da bossa nova...

Waltel É, eu fiz a bossa nova. Na época, eu e o João Gilberto dividíamos um apartamento na pensão de Dona Tereza. O João antes era cantor de ópera, tinha um vozeirão, depois mudou de estilo pra cantar baixinho. A gente ficava estudando música. Daí surgiu o ritmo, que pegou, especialmente nos Estados Unidos. Mas a bossa nova já existia antes. Laurindo de Almeida e vários outros cantores já tocavam daquele jeito na década de 30.

Folha Como foi a volta para Curitiba? Por que o senhor voltou?

Waltel Eu voltei a convite da Alice Ruiz, que na época era secretária da Cultura de Curitiba. Ela me chamou para dar aula no Conservatório de MPB. E fiquei. Voltei a tocar com o Gebrant, com quem eu já tocava antes de ir pro exterior.

Folha E hoje, o senhor ainda ensina música na cidade?

Waltel Eu já quis fazer um curso de música, mas em Curitiba é difícil. Aqui ainda existe muito pensamento de colônia. As universidades levam muito em consideração o prestígio e a origem da família na hora de contratar professor. O cara pode não saber nada, mas se for de família nobre pode dar aula. E olha que eu sou nobre também. Sou primo do Comendador Araújo. O Paulo Leminski é meu primo-irmão, filho da irmã da minha mãe. Mas as universidades não sabem disso, eles pensam que sou músico vagabundo de rua (risos).

Folha Nos últimos cinco anos houve uma redescoberta do seu trabalho. Comente esse episódio.

Waltel Eu nunca pensei que meu trabalho fosse repercutir entre o público, eu fazia porque gostava. Acabou que hoje o meu disco ''Meu Balanço'' é muito procurado por DJs, é um dos LPs mais caros do mercado. Agora o Claudio Menandro pegou mais de cem músicas minhas para gravar, e no ano passado a cantora grega Eva Fampas gravou quatro músicas minhas no álbum ''Capriccio Diabolico''. Acho até que vou morar na Inglaterra, pois o Brasil não me dá bola.

Folha Um artigo do livro ''A Desconstrução da Música na Cultura Paranaense'' cita que o senhor tem projetos para até quando completar 100 anos. Quais estes projetos?

Waltel Ih! Agora já aumentou pra 120 anos (risos). Eu quero fazer um disco de músicas para crianças, gravar discos com as minhas músicas que ninguém quer tocar por achar difíceis, e abrir minha escola de aula de música para crianças. É isso que eu quero.

> Publicado originalmente na Folha de Londrina de 22-02-2008

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